Na frente da prefeitura de Paris há uma praça que um dia se chamou “Place de Grève”. Greve, provavelmente, por conta da qualidade do terreno, com muito cascalho. Por volta do século XII, foi construído um porto onde as margens do Sena se encontravam com a praça. Palco de fogueiras e guilhotinas, executando hereges e inimigos do Estado, ali, naquele símbolo de poder, opressão e humilhação, também os homens pobres que não tinham emprego ficavam aguardando que alguém lhes oferecesse um trabalho nas embarcações que chegavam ao porto, ainda que trabalho provisório, mal pago e em péssimas condições. “Fazer greve”, então, significava estar parado naquela praça, aguardando por um trabalho. Aguardando por uma boa notícia que melhorasse sua sofrida condição de vida. O resultado, lógico, era sempre imprevisível e incerto. Podiam passar dias parados e não levar nenhum trocado para casa.

A França dos dias de hoje, seguramente, deve muito à força simbólica daquela praça e daqueles homens. É, talvez, o país em que mais fortemente a greve se tornou um instrumento comum de protesto e reivindicação (diga-se, por vezes, de forma irritante e desproporcional), e onde o empregado tenha mais claramente consciência de si como sujeito e não como objeto das relações de emprego.

Voltando à origem, a grève não era vagabundagem nem privilégio naquela época. Era uma ação, a única ação possível para obter-se não apenas trabalho, mas a chance de uma vida digna. Parar na Praça de Greve era falar simbolicamente: quero trabalhar, quero uma vida digna. E esse fazer greve era objeto de uma leitura inequívoca por parte de quem detinha os postos de trabalho e via todos aqueles homens parados na praça.

Fazer greve também não é vagabundagem nos dias de hoje. Exige coragem, assumir riscos e enfrentar quem tem o poder prático, o único que realmente conta. Permanece uma decisão difícil com resultados incertos. Assim como naquela época, a imensa maioria quer apenas trabalhar e levar sustento para suas casas. Mas é preciso se fazer ouvir para poder esperar algo melhor ou conservar o que se conquistou.  Ainda hoje, por vezes, é preciso parar para falar simbolicamente

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